quinta-feira, novembro 16, 2006

Comentários selvagens I

“Em grego, o termo original para Verbo é logos, que para os gregos significa palavra, mas também princípio ordenador do que existe. Ao referir-se a Jesus como o logos, o Evangelho de João, no primeiro capítulo, não faz distinção aparente entre a verdade como princípio regulador do mundo e a verdade que está em Cristo, que é Cristo. De modo especial neste Evangelho, estão associadas em Cristo, sem contradição, a objetividade (a verdade como a luz que “ilumina a todos os homens”, em João 1:9) e a subjetividade, na figura humana de Jesus (“o Verbo se fez carne e que habitou entre nós”, em João 1:14). Logo, segundo os cristãos, para um conceito de verdade realmente válido é necessário que as dimensões universal (teoria, abstrações) e particular (experiência individual) estejam intimamente ligadas – como de fato estão, de modo maravilhoso e inédito na história das religiões, na pessoa de Cristo. De onde se conclui que, de todos os adeptos a uma fé ou a uma determinada visão de mundo, os seguidores de Cristo são ou deveriam ser os menos propensos a caírem no engodo da separação entre essas duas dimensões”.

In: http://coletaneanormabraga.blogspot.com/2005/10/mente-de-cristo.html

Quem diz isto aí acima, é a Norma. Uma colega – se bem que nunca a encontrei pessoalmente nestes meus longos 26 anos de vida... Mas, no mínimo, temos afinidades no campo do pensamento.

Aqui eu só quero comentar algo que achei interessante no texto dela: o evangelho se realiza na realidade; é o Evangelho que afere o sentido do que é real, a qualidade da realidade só pode ser definida nos termos revelados no Evangelho. Parece uma idéia redundante ou até um pleonasmo, mas se verificarmos a tendência - como a Norma bem aponta - intimista que se certa linha cristã tenta definir o Evangelho, onde este é representado como um mero enfeite de experiências pessoais, e se é um adorno pessoal não necessariamente se aplica no geral – aliás, a universalidade do Evangelho é no mínimo neutralizada, reduzida à esfera da vida privada. E a vida privada aprisionada na jaula de ferro (a iron cage, da tradução feita por Parsons da Ética Protestante) da esquizofrenia entre a “verdade como princípio regulador do mundo” e sua realização em Cristo, leva a vida a uma perda de sentido. Isto nos deixa no beco sem saída da alienação do público – já que a privatização da vida enganosamente prende-se em sua própria gaiola, e joga a chave do cadeado prá fora, bem longe do alcance das mãos. Público aqui, eu estendo para a concepção de alteridade, geral, universal ...

Muito ao contrário do que diz a corrente pós-moderna (eu prefiro o termo “hiper-moderno”), de que a subjetivação da verdade, a recusa em operar com princípios que conferem sentido à realidade geral – já que o geral perde a força diante do particular/privado – provoca a morte da noção de alteridade. E com o assassinato destes princípios gerais, que se realizam na história, é impossível deter por exemplo, a onda de xenofobia, racismo que se tanto fala nestes dias. Não seria interessante observar, que são exatamente os países vanguardas destas correntes pós-modernas, onde se apresentam de maneira mais aguda, os casos de mais escandalosos de preconceitos, racismo e xenofobia? Vide a Europa iluminada por séculos e séculos pelas luzes da razão autônoma, tão “ilustrada”, “avançada” nos discursos que alimentam a morte da razão – como apontam Schaffer e outros - caem na armadilha das charges dos profetas, dos motins na Cidade da Luz, do caso insolúvel nas montanhas serenas dos Bálcãs, onde milhares são mortos, debaixo dos “narizes pós-modernos”....

Pois bem minha amiga Norma, se o Filho nos libertar, verdadeiramente seremos livres – livres do engodo da razão autônoma, que contraditoriamente se prende no laço dos extremismos políticos; a verdade de cada um, que incita e excita o ódio de todos “nós” contra todos “eles”... Mas, louvemos o paradoxo e deixemos de lado estes casos “isolados” de insanidade racional, alguns diriam. Um paradoxo que teima em destruir a razão mas não formula alternativas aplicáveis nas ruas – pode ser nas ruas de Paris, se o leitor assim o quiser... ou na tua rua mesmo. Esta concepção de paradoxo que não enfrenta a outra parte, que separa o significado do significante e anula o sentido e escamoteia o destino da História, apresenta-se como ladainhas retóricas Uma geração está proclamando a liberdade – mas o seu clamor é feito atrás das grades – grades feitas de vidros à prova de balas, possuem a aparência de transparência, mas são rígidas e falsamente flexíveis.... Idólatras se dizendo ateístas ou panteístas, já que o sentido é privado, cada um adora o deus que bem entende, mas aí, nesta idolatria, ninguém entende nada e o pior, nem ninguém entende ninguém.

Pois bem minha amiga Norma, “e disse Deus: ‘Haja Luz!’ E houve Luz.” Algum tempo depois, “o Verbo se fez carne”, então tudo que era carne passou a ter sentido, vida, passou a ser relacionável, pois Deus se fez carne... Só neste movimento daquele que é a Razão da nossa Fé, será possível identificar, nomear e se relacionar com a carne que habita nesta realidade. Alguns Norma, como você bem coloca, teimam abandonar o Verbo, tapar os ouvidos à Voz que despedaça o cedro e os altares idólatras, na rebeldia recusam não responder à Voz que confere sentido ao vale de ossos secos... e depois reclamam do silêncio ensurdecedor do racismo, extremismos e outros ismos da vida...

Eu quero ser realista: onde o Verbo estiver, ali estará a realidade. Eu quero ser humanista: somente um relacionamento profundo com o Deus que se fez Homem e compreendendo muito bem sua Palavra, é que conseguirei exercer minha própria humanidade e interagir com outro humano. Se não a gente se mata: ou eu mato o outro, ou o outro me mata, ou qualquer outra coisa parecida...

“Ensina-me o Teu caminho, Senhor, para que eu ande na Tua Verdade; dá-me um coração inteiramente fiel, para que eu tema o Teu Nome”...

4 Comments:

At 10:34 AM, Blogger Guilherme Carvalho said...

Caro Marcel,

acho que vc tocou num ponto crítico; a pós modernidade quer afirmar a alteridade, rejeitando a possibilidade do confronto e da diferença, em uma espécie de pluralismo epistemológico ultra-radical.

Mas o resultado paradoxal disso é que, em nome do respeito à alteridade, a alteridade é dissolvida; pois toda diferença afirmada de modo não-niilista é entendida como "fundamentalismo" de algum tipo.

Assim, o admirável mundo novo da pos-modernidade seria um mundo sem paixão, em que os diferentes concordam em acreditar igualmente em nada. Em não ter certeza nehuma, e projeto nenhum. Assim, temos a paz absoluta - a paz da morte.

Parabéns pelo Blog!

Gui

 
At 11:35 AM, Blogger André Tavares said...

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At 11:36 AM, Blogger André Tavares said...

Marcel,

espero que a 'selvageria' seja a norma por aqui. Post muito bom. Meu amigo, deixa essa vida de antropólogo quantitativo e se torne um jornalista/ensaísta profissional. Esses talentos estão em desuso nos nosso dias, e vc os tem de sobra. "Rasgue ventres com palavras, e faça-lhes o sangue subir à cabeça".

 
At 11:39 PM, Blogger Os Decadentes said...

Meu amigo Marcel,

Bom seu texto. Quero aproveitar pra dizer que o Verbo(Cristo...) tem essa coisa estranha: ao mesmo tempo que encarna, pode ser comparado a um mito. O Cristianismo é a única religião em que uma mitologia encarna, neste caso o Verbo se faz Carne. Bem, se Cristo fosse apenas uma mitologia já seria suficiente para mudar o mundo. Além disso, ele ainda encarna!! faz-se real! É essa a diferença, o Mito nos é revelado e encarnado pela Graça, através da Cruz. Lembro o que disse C.S Lewis sobre as saudades do tempo em que se criava um mitologia acerca do céu: vc olhava para aquilo, aquele azul infinito, profundo e inalcansável, e delirava, inventava, criava um imaginário. E hoje? as pessoas dizem que não passa de ozônio.

Mitologia e realidade. Talvez uma chave importante para a beleza de um olhar Cristocêntrico para o kosmos.

Abraço cara, até mais!!

Vinícius

 

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